Laranja Mecânica – Um retrato da violência cotemporânea

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Foto: Bárbara Valdez

Começar a resenhar um clássico da literatura como Laranja Mecânica é uma responsabilidade grande. O que posso dizer de imediato é que a história de Alex (personagem principal do livro) é um retrato extremamente atual da violência cotidiana, mesmo depois de mais de 50 anos da sua concepção original, em 1962.

A história foi escrita pelo autor inglês Anthony Burgess quando este, por uma previsão médica errada, pensava que ia morrer por causa de um tumor no cérebro. O livro é narrado em 1ª pessoa por Alex, um adolescente que ama o mundo da violência e que também adora música clássica. Sob essa temática, o texto de Burgess foi traduzido para diversos idiomas e adaptado para o cinema, numa película clássica dirigida por Stanley Kubrick.

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Fonte: Internet

A edição do livro que li foi a publicada pela Editora Aleph, em versão paperback, de 2014. Primeiramente gostaria de ressaltar que achei a edição extremamente bem trabalhada, o prefácio, as notas sobre a tradução, glossário, tudo foi feito de forma a ambientar o leitor no universo do livro, explicando questões de linguística que estão muito intrínsecas no desenvolver da obra (e que vou explicar mais à frente).

O texto propriamente dito é bem curto, tem menos de 200 páginase está dividido em três partes, com 21 capítulos no total. A narração feita por Alex faz o leitor se sentir numa conversa real com delinquentes juvenis, ou como se estivesse assistindo uma dessas entrevistas que passam nos jornais, nos quais bandidos falam sobre os crimes que cometeram numa mistura de indiferença, soberba e autopiedade. E esse realismo é que torna a obra atual.

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Alex. Fonte: Internet

Laranja Mecânica começa com o relato de Alex numa de suas muitas noites de “diversão” pela cidade. Ele e seus druguis (“amigos” na linguagem das gangues) cometem uma infinidade de delitos como agressão, roubo e estupro e tudo é contado de forma natural por Alex; natural não, excitante, extasiada, como se toda aquela violência fosse o que impulsionasse a vida dele e nenhum remorso aparece nos relatos.

Eles não procuram saber qual é a causa da bondade […] E eu frequento a outra loja. E mais: maldade vem de dentro, do eu […] Estou falando sério sobre isso com vocês, irmãos. Mas eu faço o que faço porque gosto de fazer. P.42

É bem impactante para o leitor entrar nesse universo e lidar com toda a ultra violência seca e mais ainda porque não existe o personagem do herói para contrabalancear esse contexto; Alex é a construção do anti-herói extremo. Mas não é somente a violência das gangues que é colocada em destaque, a falta de condições do Estado em lidar com essa situação também é visível. Burgess já falava no texto de presídios super lotados, de agressão extremada da polícia, de usar métodos (no caso do livro, a lavagem cerebral) para resolver questões de forma pontual, sem lidar com a raiz do problema.

– É um mundo fedido porque deixa os jovens baterem nos velhos como vocês fizeram, e não existe mais lei nem ordem. P.16

– Será sua própria tortura […] Espero, por Deus, que essa tortura enlouqueça você. P.76

A lavagem cerebral feita com o intuito de “recuperar” criminosos põe em cheque o que é reabilitar alguém. O intuito do Governo é simplesmente cumprir metas, mostrando um cenário superficial para acalmar os ânimos da sociedade. A tal recuperação de Alex não passava de instinto de auto preservação e não de consciência ética.

– Ele deixa de ser um malfeitor. Ele também deixa de ser uma criatura capaz de escolha moral.

– Isso são sutilezas. Não estamos preocupados com o motivo […] Estamos preocupados apenas em reduzir o crime. P.128

Em alguns momentos, apesar de toda a crueldade de Alex, cheguei a sentir pena dele. Foi um sentimento em relação ao ser humano, porque de uma forma ou de outra, o Estado estava agindo contra o homem da mesma forma que os criminosos agem, sem piedade e com prazer.

Outra questão impactante no texto de Laranja Mecânica é o seu vocabulário. Existem diversas gírias que representam o dialeto nadsat, ou seja, uma linguagem própria que as gangues de adolescentes usam entre si na história (isso é mais um “gancho” com a atualidade e o modo de falar entre as gangues de tráfico de drogas, por exemplo, e entre os diversos grupos sociais, independente da violência).

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Foto: Bárbara Valdez

Quando comentei mais acima sobre a preocupação da Aleph em contextualizar a questão linguística foi em relação às palavras do dialeto nadsat. Tem um glossário no final do livro traduzindo o que significa cada palavra. Eu particularmente preferi ler o glossário depois de terminada a história, porque realmente queria sentir como seria imergir literalmente no universo contado por Alex, mesmo ficando meio perdida sobre o sentido de algumas expressões. De acordo com uma nota da Aleph, feita no próprio livro, essa foi a intenção do autor quando criou a linguagem nadsat e o glossário não foi criado por Burgess, mas foi sendo feito por críticos e fãs da história de forma não autorizada formalmente.

Por fim, algo interessante sobre Laranja Mecânica é que na tradução americana do livro, o capítulo 21 do texto foi excluído, consequentemente, o filme de Kubrick, que se baseou na versão americana, também finalizou de uma forma diferente do texto original de Burgess. Eu achei isso muito sem lógica, como alguém corta o capítulo final de um livro?

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Estampada em homenagem ao filme do site 365filmes.com.br

Mas enfim, consigo visualizar essa última parte como um posfácio, uma nova etapa na vida de Alex depois de tudo que ele vivenciou e uma pontada de esperança sobre o início da vida adulta depois da juventude

Agora, para quem quiser conhecer um pouco mais as músicas que Alex tanto ama e, assim, imergir mais no personagem, pode escutar essa playlist que fiz baseada nas referências citadas no livro.

[…] veio o solo de violino acima de todas as outras cordas, e essas cordas eram como uma gaiola de seda ao redor da minha cama.




Quem quiser comprar o livro pode procurar o exemplar no site da Livraria CulturaLá existe tanto a versão paperback quando a edição especial em capa dura que contém vários extras sobre a história (e estou louca para ter esse exemplar também).

Quando um homem não pode escolher, ele deixa de ser um homem. P.85

Então eu krikei mais alto, ainda krikando: – Será que eu serei apenas uma laranja mecânica? P. 128

 

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3 comentários sobre “Laranja Mecânica – Um retrato da violência cotemporânea

    1. Own, Raquel! ❤ ❤ Fico super feliz que você tenha gostado, eu sempre escrevo cada resenha com muito carinho e é ótimo poder incentivar as pessoas a lerem algo, muitas vezes, inesperado para elas, como está sendo teu caso.
      Um beijo e continua acompanhando as próximas histórias daqui porque vão ter novidades bem legais. 😉

      Curtido por 1 pessoa

  1. Pingback: Leituras de janeiro/2016 | Achando Histórias

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