S. – uma experiência literária

Capa de S. com os vários anexos que compõem a obra.

A história de hoje é uma das mais comentadas nas redes sociais da Editora Intrínseca nos últimos meses. O livro “S.” tem uma proposta de encher os olhos de qualquer leitor e uma premissa que parece ser muito instigante. A aventura foi escrita pelo roteirista J.J. Abrams (o mesmo que trabalhou na série Lost) e pelo romancista Doug Dorst, tendo sido publicada aqui no Brasil no fim do ano passado.

A experiência que tive com a leitura foi algo de amor e ódio. “S.” tem uma construção completamente diferente de tudo que eu já tenha lido anteriormente, então o impacto para saber como absorver a história foi intenso. Posso dizer que é preciso estar desarmado de qualquer concepção prévia sobre linearidade narrativa e, acima de tudo, estar disposto a entrar no jogo de mistério que perpassa por todos os personagens do livro.

Vamos começar?

Bom, como expliquei nos vídeos do Book Haul de Dezembro e Leituras de Janeiro, “S.” tem uma história dentro da outra. O livro que podemos manusear é intitulado “O Navio de Teseu” e ele tem como característica principal passar-se por um exemplar antigo que estaria disposto numa biblioteca. Sendo assim, essa obra vai ter marcas de desgaste típicas, como páginas amareladas pelo tempo, marcas de mofo, carimbos de empréstimo anteriores e uma infinidade de anotações e grifos manuais.

Parte interna de S.

O trabalho gráfico para passar veracidade ao desgaste atribuído ao “Navio de Teseu” está impecável e qualquer leitor desavisado vai pensar que esse título é efetivamente algo muito antigo e provavelmente acreditará que você o roubou de alguma biblioteca. A Editora Intrínseca está de parabéns mesmo, bem como o designer Antônio Rhoden, que cuidou do trabalho gráfico da versão brasileira do exemplar. Quem quiser ver mais detalhes sobre essa parte visual acompanhe o vídeo que fiz sobre o livro no canal do YouTube.

Capa de S. + Navio de Teseu.

“O Navio de Teseu” foi escrito por V.M. Straka, em 1949, e traduzido por F.X. Caldeira. Ambos os personagens são fictícios e partes essenciais para adentrarmos na parte da aventura que se passa na atualidade. Esta última narrativa é construída por meio de todos os grifos e anotações manuais feitos em quase 100% das páginas (me deu uma dor ver um exemplar rabiscado assim! rsrsrs). Os responsáveis pelo “sacrilégio” ao livro são Jennifer (Jen), uma estudante de Literatura, e Eric, um pesquisador fascinado por Straka.

V.M. Straka não era apenas um contador de histórias, ele era história. E a história é resistente, multifacetada, eterna. P. xii

Foto da capa de O Navio de Teseu

A medida que a narrativa avança é possível nos aprofundarmos cada vez mais na vida “real” desse misterioso escritor que foi V.M. Straka. O enredo em torno do personagem é permeado por conspirações políticas, atritos com grandes empresas, assassinatos e também romance. É complicado entender essa parte do enredo, pois a história não é contada de forma linear, ou seja, é como se Jen e Eric tivessem passado pelas páginas várias e várias vezes e a cada momento tivessem anotado alguma coisa. Assim, nós lemos relatos novos e antigos que estão um ao lado do outro e é quase impossível criar uma delimitação quanto a isso.

Parte interna de S. e anexos

A história do “Navio de Teseu” não é, como alguns poderiam pensar, uma coadjuvante do jogo de mistérios em torno do autor, muito pelo contrário, ela é uma aventura impossível de largar. O enredo gira em torno de um homem que está sem memória e se vê envolvido numa série de acontecimentos em cadeia cada vez mais complicados, misteriosos e perigosos. Tudo que acontece em torno do personagem está atrelado a um navio, o qual me lembrou em diversos aspectos os navios amaldiçoados que aparecem nos filmes de Piratas do Caribe.

O que começa na água lá deve terminar, e o que lá termina deve mais uma vez começar. P.12

Foto do Navio de Teseu.
Fonte: Wikipedia

A primeira impressão que tive com a narrativa do “Navio de Teseu” foi dela ser construída de forma um pouco onírica, em que realidade e momentos de torpor e nirvana se misturam. A organização espaço-tempo também é fluida, assim cada personagem transita por situações de maneira desprendida, em que tudo pode modificar-se de modo repentino. A capa do livro reflete toda a aventura de modo conciso: um redemoinho de acontecimentos com o navio de Teseu sempre no centro.

– Eles estão chegando. Ainda não acharam a gente, mas estão chegando.
– Chegando onde?
– Onde barcos como o nosso antes ficavam seguros. P. 339

Capa O Navio de Teseu

Em relação à narrativa das bordas do livro foi aí que minha relação de “ódio” começou a crescer um pouco. Senti que o texto abordou muitos, mas muitos elementos no seu desenrolar. Suposições sobre uma infinidade de pessoas que poderiam ser Straka, questões sobre corrupção de grandes companhias, casos de suicídio, debates sobre o “real” significado de “O Navio de Teseu”, enigmas para desvendar (que eu resolvi ignorar, pois não ia dar conta de fazer tudo ao mesmo tempo) e a própria história de Jen e Eric.

Tudo isso ainda é acrescido de diversos anexos que existem no livro – cartas, bilhetes, mapas, fotos, postais, etc. Esses detalhes são uma experiência incrível de manusear, mas também deixam o leitor um pouco  confuso, são muitas coisas para dar conta.

Anexos que estão presentes no livro de S.

A parte dos diálogos de anotações é o momento em que se questiona quem ou o que é o “S”. Ele representa uma organização política, uma única pessoa, ele é Straka ou Straka é na verdade um conjunto de outras pessoas? Os personagens questionam se “O Navio de Teseu” é uma metáfora para a vida de Straka, como uma autobiografia disfarçada, ou é uma aventura política permeada por fantasia e suspense (eu, particularmente, prefiro pensar no segundo, mas na verdade ambos fundem).

A história na qual você entra, ele aprendeu, é sempre mais complexa do que parece no começo. P. 352

Capa de S.

Quando alguém pega “S.” para ler, tem a opção de entrar no universo do texto de diversas formas. Eu escolhi ler o livro como um todo duas vezes. No primeiro momento me concentrei unicamente na história do “Navio de Teseu” e ignorei todas as anotações e anexos de fotos ou cartas. Terminada a leitura, voltei à primeira página e me isolei junto à Jen e Eric para tentar entender todos os entremeios relacionados à Straka.

Notas manuscritas feitas em S.

Essa escolha funcionou para mim, fez como que a aventura do livro central fluísse mais rápido, enchendo minha mente com um universo de perseguições e suspense que por si só já é cheio de elementos. Além disso ter me concentrado de imediato somente no “Navio de Teseu” fez com que eu pudesse compreender melhor os comentários feitos nas bordas do exemplar, pois assim como Jennifer e Eric, eu também já havia lido o livro.

Bom, é isso. A resenha ficou maior do que eu esperava. Quem quiser comprar o exemplar, ele está à venda na Livraria Saraiva e Cultura. Beijos a todos.

O principal diferencial de “S.” é que, nas palavras de Antônio Rhoden, “o livro é um personagem” e dentro da narrativa isso faz toda a diferença.

OBS: todas as fotos do post foram tiradas por mim, com exceção das que estão com as fontes citadas.

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17 comentários sobre “S. – uma experiência literária

      1. Nossa, eu queria conseguir ler tanto livro ao mesmo tempo! Apesar de que entre a primeira e a segunda leitura de “S.”, eu coloquei outro livro no meio, pra dar um break, pois minha cabeça estava confusa com todo o quebra-cabeça de J.J.Abrams. kkkkkk

        Curtido por 1 pessoa

  1. Chris Mazzola

    Olá! Vi que leu duas vezes, na primeira, ignorando as marcações. Após ter, de fato, lido TUDO, recomenda fazer a mesma coisa (manter o foco primeiramente na historia central) e DEPOIS, ler anotações e ver anexos? ou após ter visto tudo, aconselha já ir lendo e parando – consultando anotações e anexos?
    Ir parando muito, o livro não flui e confunde muito e compromete a história?
    O que aconselha?
    Obrigado!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi Chris, tudo bem? 🙂
      Olha, a estratégia para ler “S.” varia muito de pessoa para pessoa. Eu gosto sempre de me concentrar numa história por vez, pois consigo vivenciar a aventura de modo mais pleno, esse foi o motivo das duas leituras. Se tivesse lido simultaneamente (anotações e texto central), sei que acabaria não me apegando a nenhum dos dois momentos da história efetivamente. Quando terminei o livro também percebi que algumas partes das anotações fazem referências a capítulos posteriores, não são spoilers, mas de certo modo são dicas do que ainda vai acontecer. Assim, não necessariamente a anotação numa página fará referência ao texto do “Navio de Teseu” daquela página.
      Como você me pediu um conselho, diria para ler as duas vezes, a leitura vai ser mais rápida, além do mais o texto central é muito viciante e perderá um pouco do ritmo se você ficar parando, mas a escolha é sua. Depois me conta o que decidiu e como foi tua experiência de leitura. Beijão :-*

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    1. Olá Mayra! Que massa é estar com “S.” nas mãos. Eu adorei a primeira vez que abri o livro. rsrsrsr
      Olha, quanto à história, eu amei o texto especificamente do “Navio de Teseu”. O enredo realmente me prendeu e tem uma mistura ótima de suspense e ação. A parte das anotações me deixou um pouco perdida em alguns momentos e achei que tinham muitas informações para assimilar, isso às vezes ficava um pouco cansativo, pelo menos para mim. No fim das contas, eu acabei perdendo a vontade de saber quem era o Straka e me interessei mais sobre a vida da Jen e do Eric mesmo. Se você está com receio do livro ficar um pouco maçante, foque primeiro na leitura do texto central porque vale a pena. 😉
      Depois conta para mim como foi tua leitura. Um beijo.

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  2. Pingback: Blog Achando Histórias – Barbara Valdez

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