A Casa dos Macacos – uma narrativa carismática

Foto: Bárbara Valdez

Quantos de nós não acham interessante e surpreendente deparar-se com a similaridade que os macacos apresentam com os seres humanos? Aspectos comportamentais, cognitivos e mesmo físicos têm diferenças tênues entre as duas espécies. Tendo como base essa premissa e também os estudos linguísticos da comunicação real de símios com os humanos (feito por meio de linguagens de sinais) é que se constrói a história A Casa dos Macacos.

O livro foi escrito pela Sara Gruen, mesma autora de Água para Elefantes (um romance que adoro!) e publicado pela Editora Record, em 2011.

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Família de bonobos na Repúblico Democrática do Congo. Fonte: site lolayabonobo.org

Gente, é um prazer acompanhar as histórias da Sara. Ela tem um escrita fluida, com toques cômicos e capaz de transformar ações cotidianas em algo cativante.

A Casa dos Macacos conta a história de 06 símios (Sam, Bonzi, Mbongo, Jelani, Lola e Makena) que vivem num laboratório de pesquisa linguística. De repente, na época do ano novo, o local sofre um atentado, a pesquisadora Isabel (que considera os animais como sua família) fica gravemente ferida e os símios são levados embora.

Quando finalmente os macacos são encontrados, eles passam a fazer parte de um show da mídia que busca entretenimento barato e onde os produtores não estão nem um pouco interessados no bem estar da espécie. É aí que o leitor se depara, de fato, com A Casa dos Macacos!

 

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O livro acompanha toda a história dos animais por meio de dois personagens principais, a Dra. Isabel e o jornalista John. Eles estão envolvidos nos acontecimentos de diferentes maneiras, mas ambos são essenciais para o desenrolar do enredo.

De modo geral, John traz a parte mais leve da trama, tendo muitos pontos cômicos nas cenas em que aparece. Não é nada que chegue ao tom de uma comédia, mas dá ao personagem um carisma todo especial. Um das cenas mais engraçadas é quando ele vai se encontrar, em segredo, com uma prostituta para fazer uma entrevista e é atacado por uma senhora com spray de pimenta. A relação dele com a esposa, Amanda, que é escritora, também é muito bem trabalhada e fiquei apaixonada pelo casal.

No caso de Isabel, ela concentra os pontos mais dramáticos que incluem crueldade animal, traição e a própria tensão relativa a busca pelos símios desaparecidos. É uma perspectiva mais intimista da relação com os animais.

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N’Djili. Um bebê bonobo fêmea com apenas 02 anos de idade. Fonte: site lolayabonobo.org

Um ponto que vale ressaltar é que A Casa dos Macacos não é uma história eletrizante, o que se poderia pensar ao ler a sinopse ou resumo na “orelha” do livro. Não há grandes perseguições ou reviravoltas e tudo acontece de forma mais cotidiana. Contudo o que cativa o leitor é a construção da narrativa, a forma que as cenas são contadas são muito gostosas de ler. Isso fez com que eu não conseguisse desgrudar do livro, querendo sempre estar perto de tudo que acontecia, como uma abelhinha escrutando a vida das pessoas.

Durante a narrativa, a autora aborda uma infinidade de questões que vão fundindo-se umas às outras. Achei super interessante a Sara tratar de problemas recorrentes na profissão de jornalistas e de escritores. Para quem gosta dessa área de comunicação é ótimo você poder vivenciar um pouco como é complexo esse universo das letras e entrar em crise junto com os personagens.

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Sobre o mundo do jornalismo, uma frase que gostei muito foi:

O trabalho do jornalista é tranquilizar os aflitos e afligir os tranquilos. P. 52

No aspecto dos animais aparece a abordagem da crueldade em nome da ciência realizada em alguns laboratórios, esse é um ponto bem forte e difícil de ler. São trabalhados também os problemas de grupos extremistas que lutam contra algo ruim de maneira tão cruel quanto o que estão acusando. Porém o que achei mais incrível foi saber mais sobre os símios, especificamente, os bonobos.

Conjunto de símbolos (lexigramas) pelos quais os bonobos se comunicam com os humanos. Fonte: site artforbonobohope.org
Conjunto de símbolos (lexigramas) pelos quais os bonobos se comunicam com os humanos. Fonte: site artforbonobohope.org

Os símios são a subordem dos primatas que têm uma maior proximidade com a raça humana. Dentro desse grupo estão os bonobos, que são os animais abordados no livro, e essa espécie tem 98,7% de DNA compatível com um humano.

A história retrata vários aspectos reais da vida dos bonobos: o fato deles serem um sociedade matriarcal e extremamente pacífica; de existirem pesquisas de linguagem com esses animais, nas quais os bonobos se comunicam com os humanos por meio de um amplo conjunto de símbolos; e um fato curioso, o de os animais vivenciarem muito o contato sexual, principalmente para aliviar a tensão. Este último aspecto é essencial na história para retratar o interesse da mídia em usar o macacos.

Bonobo fêmea com o filhote na República Democrática do Congo. Fonte: site lolayabonobo.org
Bonobo fêmea com o filhote na República Democrática do Congo. Fonte: site lolayabonobo.org

Com o fim do texto o leitor sente que viveu uma aventura quase que real e os personagens mantem-se na memória por um bom tempo. E quem quiser saber mais sobre o trabalho junto ao bonobos, é interessante entrar nos sites do Instituto Lola Ya Bonobo (citado no livro) e do Art For Bonobo Hope.

Espero que vocês tenham gostado da história de hoje, eu super aconselho a leitura. Quem quiser dar uma olhada, o livro é vendido na Livraria Saraiva e Livraria Cultura. Beijo!

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