As Esganadas – um thriller policial de costumes

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A história das “Esganadas” tem como base uma série de assassinatos brutais envolvendo mulheres gordas na cidade do Rio de Janeiro da década de 1930 e acompanha a busca da polícia em desvendar esse mistério e capturar o psicopata responsável pelas atrocidades. O texto foi escrito por Jô Soares e lançado em 2011 pela Companhia das Letras.

Não há pressa. Sou senhor do tempo e a caça é farta. P. 92

Queria ler essa história já faz um tempo, pois além de gostar do Jô enquanto artista, achei que a sinopse remetia as aventuras de mistérios ligadas ao conhecido detetive Sherlock Holmes e, de fato, na trama do livro existe um detetive que trabalha puramente baseado na dedução lógica para desvendar os crimes que estão sendo cometidos. Esse é o sr. Tobias Esteves, um português que também é apaixonado por culinária.

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O livro tem uma narrativa peculiar, construída de certa forma como um roteiro de filme ou peça teatral, talvez pelo fato do autor ser também dramaturgo e ator. Digo isso, pois as cenas muitas vezes são descritas detalhando posicionamento dos personagens no cenário, expressões faciais e ações específicas, como um abrir de porta ou forma de dobrar um jornal. Os personagens precisavam estar se movendo o tempo inteiro e isso foi algo que não gostei na leitura.

Para reforçar a ideia da ambientação teatral, existem muitos momentos de transmissões de rádio (principal meio de comunicação na década de 30), nos quais o locutor, de forma pomposa, descreve parte dos acontecimentos e sempre emenda o discurso com a propaganda de algum produto que promete ser milagroso, como o Xarope São João ou Elixir Phospho-Kola.

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Outro ponto interessante em “As Esganadas” é o fato do leitor não precisar buscar soluções para descobrir quem é o psicopata assassino. Toda a narrativa é contada por um ângulo diferente, em que nós, apreciadores do texto, ficamos observando tudo à distância e já sabemos nas primeiras 20 páginas quem é o psicopata e por quais motivos ele escolhe as vítimas. Assim, podemos ver todo o trabalho da polícia com um olhar mais crítico.

Quanto aos personagens, o ranzinza detetive Mello Noronha foi com quem, paradoxalmente, mais simptizei. Ele, apesar de estar sempre de mal humor, se importa com seus amigos e é comprometido em fazer um bom trabalho na polícia. Ainda entre os personagens principais temos o detetive português a la Sherlock Holmes, Tobias Esteves; o ingênuo assistente de polícia Calixto; Diana, um jornalista decidida; e Caronte, o dono da funerária responsável fazer o enterro de todas as vítimas esganadas.

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Fonte: Internet

A narrativa de Jô traz várias referências histórias, principalmente em relação ao Estado Novo de Getúlio Vargas, mas também relativo ao nazismo e fascismo. O texto também tem um humor ácido e faz críticas sociais a desigualdade econômica, a como mulheres gordas sofrem preconceitos, a como o Brasil muitas vezes ainda é visto no exterior sendo uma “selva”, etc.

Por mim, prefiro um velório de rico do que um casamento de pobre. P.51

Dentro de cada mulher gorda há uma magra suplicando para sair. Fora de cada mulher gorda há uma mulher mais gorda ainda suplicando para entrar. P. 93

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Um coisa que me chamou atenção foi o fato de que os crimes apresentados são realmente brutais. Eu sei que a sinopse do livro fala isso, mas a narrativa tem um tom de comédia, então não achei que a história fosse ser muito pesada, mas ela é e muito. Sobre as diversas mortes apresentadas, todas envolvem alimentos de origem portuguesa e fazem o leitor perder o apetite.

Três mulheres gordas pendem dos ganchos do antigo matadouro […] lembram as carcaças dos animais abatidos.Um papel amassado em forma de flor sai de suas bocas. P. 31

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As partes iniciais de “As Esganadas” são super interessantes de ler, têm um ritmo bem intenso, porém a medida que a narrativa avança, o texto torna-se mais cansativo. Um dos capítulos que mais achei devagar foi o que se passava durante uma partida de Copa do Mundo entre Brasil e Itália. O texto da cena inteira era permeado por trechos em que o locutor narrava o que estava acontecendo no campo e isso nada tinha a ver com o enredo central. Isso poderia muito bem ter sido cortado/enxugado na edição.

Além de se estender em momentos desnecessários, o livro tem um conteúdo de certa forma difícil de ler. O Jô trabalha com muitas palavras em latim, alemão e francês, além de detalhar alguns aspectos de biologia. Para um leitor ainda iniciante acredito não ser uma leitura indicada, apesar de contar com apenas 259 páginas.

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Por fim também me incomodou o fato dos personagens serem bem estereotipados, tanto que você previa cada ação seguinte deles. Isso deve ter sido uma forma do autor dá certa comicidade ao texto e também fazer críticas sociais, mesmo assim foi algo com o qual não me senti à vontade.

Bom, “As Esganadas” não foi minha melhor leitura de 2016, mas ainda assim é interessante para quem gosta de tramas com assassinato e quiser se aventurar na literatura nacional. O livro está à venda na Livraria Saraiva e na Livraria Cultura. Um beijo a todos e até a próxima história.

 O assassino é o purista da basse cuisine, o gourmet do post mortem. P.64

*todas as fotos sem legendas foram tiradas por mim.

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