Puros -“É a feiura que dá beleza às coisas bonitas”

puros

Na história de hoje entraremos num ambiente devastado por bombas atômicas, onde as pessoas lutam pela sobrevivência e têm de conviver com marcas físicas resultantes da radiação e das explosões. Assim, a grande maioria da população sobrevivente possui cicatrizes, amputações e o que a autora chama de fusões, ou seja, corpos que estão ligados a outros corpos (como siameses), humano ligado a animais e a objetos, deformações em geral.

Uma parte da sociedade, no entanto, conseguiu proteger-se da devastação, abrigando-se em um Domo. Essas pessoas são fisicamente perfeitas e até com investidas genéticas de aperfeiçoamento, essas pessoas são os Puros.

Talvez, no fim das contas, seja esse o melhor presente que o Domo pode oferecer: quando se vive em um lugar com bastante segurança e conforto, é possível fingir que sempre se tomaria a melhor decisão, mesmo diante do desespero. P. 231

cidade-de-hiroshima
Cidade de Hiroshima depois do ataque da bomba atômica. Fonte: Internet

O livro ao qual estou me referindo é “Puros”, escrito pela autora estadunidense, Julianna Baggott, e publicado na versão brasileira pela Editora Intrínseca, em 2012. A história é a primeira de uma trilogia, a qual conta com as sequências Fuse e Burn (ambos ainda sem tradução para o português).

Baggott constrói uma clássica aventura distópica (sem ser muito inovadora em relação à estrutura), mas com elementos que fazem a história ter originalidade. O fato dela trabalhar com os efeitos causados por bombas atômicas, evidenciando mutilações, marcas de violência de maneira explícita, é um desses pontos.

puros-tatuagem
Fonte: Internet

A maioria das histórias sempre preserva seus personagens fisicamente ou então os faz morrer de forma rápida. Não existem sequelas estéticas, principalmente para os mocinhos. É como um acordo tácito de que as pessoas têm de estar sempre “perfeitas” e no máximo os vilões podem ter deformidades. Nesse aspecto, o livro de Baggott desafia o acordo e esse é seu maior diferencial, ir além da estética. Porém também pode ser o motivo da série não ter feito tanto sucesso, tanto que as traduções brasileiras do 2º e 3º volume ainda não foram lançadas.

– Linda? É uma cicatriz.

– É uma marca de sobrevivência. P. 273

A questão da deformidade física foi um ponto que achei desconfortante no início da leitura (acredito que a maioria das pessoas teria esse impacto), mas isso foi naturalizando-se mais ao longo na narrativa. Essas características ressaltam a dor de forma mais palpável, não se restringindo a dor psicológica ou ao visual de escombros e passagens rápidas da morte. Além disso, é uma maneira de despir-se de padrões.

puros

Dentro desse universo distópico e sombrio é que estão Pressia e Partridge, dois jovens que passaram por experiências de vida diferentes. Este último estava abrigado no Domo e a garota viveu quase toda a sua vida tendo que lidar com as consequências de um mundo em ruínas. Apesar das diferenças, eles vão descobrir uma ligação especial entre si e serão peças-chave de um levante contra a estrutura atual da organização social.

A história do livro é narrada em 3ª pessoa e cada capítulo enfoca um personagem diferente. Pressia e Partridge são os principais, porém também aparecem Lyda (uma garota do Domo que teve um fugaz romance com Partridge durante um baile) e El Capitán, um soldado que participa de uma milícia da parte da cidade em ruínas. Senti falta de capítulos enfocando Bradwell, um rapaz da parte devastada que tem ideias revolucionárias e aparece durante todo o enredo. A vida dessas pessoas se entrelaça quando Partridge sai do Domo para ir em busca da mãe que ele acredita ainda estar viva.

puros
Fonte: Internet

Ficar encarando as pessoas. Ninguém aqui quer ser encarado. P.109

Outro ponto de destaque é que a devastação distópica em “Puros” não é algo antigo, onde ninguém lembre mais do mundo “civilizado”. A história se passa cerca de 09 anos depois do ataque com as bombas, então os personagens têm lembranças do que chamam do “Antes”. Isso é interessante, pois existe um contraponto, entre como era e como é o mundo atual. E o mais interessante é que esse mundo de antes não era necessariamente algo melhor do que o presente devastado.

puros

Apesar dos pontos positivos, achei o enredo em si teve momentos superficiais e os que mais me incomodaram foram as cenas de briga. Nessas partes, alguns dos personagens matavam com frieza, sem nem ao menos hesitar, e esses personagens não eram soldados habituados à morte, eram pessoas que nunca tinham tido essa experiência antes. Essa falta de emoção deixou a desejar e ficou estranha na narrativa.

Com o fim da leitura, posso dizer que Puros é um livro que envolve o leitor rapidamente. Além disso, a forma que a autora ressaltou a questão da radiação e das bombas pode nos fazer refletir sobre a brutalidade de um ambiente destruído e sobre os ataques reais com bombas atômicas que aconteceram no Japão e as conseqüências deles. Baggott fala sobre um livro não-ficcional que fiquei interessada em ler, O Último Trem de Hiroshima, um relato sobre a dor daquele período.

puros3
Fonte: Internet

Ela não quer ver beleza nisso, mas vê. Encontra pequenos momentos de beleza em todo lugar – mesmo na feiura. P.12

Quanto a sequência da série, li a sinopse das histórias e elas parecem ser interessantes, principalmente o último livro, pois ele dá a entender que as pessoas podem mudar de lado ao longo da aventura e os mocinhos podem deixar de sê-lo. Então, vamos aguardar as continuações serem publicadas aí pela Intrínseca, não é!?

Um beijo a todos e quem quiser comprar o livro “Puros” pode passar no site da Americanas e Livraria Cultura.

Ele é otimista de um jeito que ninguém ali é, mas também tem uma tristeza profunda. De certa forma, ele não parece nada puro. P.102

*as fotos sem legenda foram tiradas por mim.

Anúncios

2 comentários sobre “Puros -“É a feiura que dá beleza às coisas bonitas”

    1. Oi Vanessa, eu também estou com receio de que a série completa não seja publicada. Vou tentar falar com a Intrinseca pra ver se eles dão uma posição. Mas independente da publicação, leia o primeiro livro, vale a pena. Só é chato porque ficamos na ansiedade de saber o que acontece em seguida.
      Um abraço.

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s