Lagoena é uma colcha de retalhos

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Foto: Fan page oficial do livro | Reprodução

O livro tem uma premissa de fantasia interessante, mas a forma que o enredo foi desenvolvido não traz nada de novo e no fim da leitura percebi que o texto se constrói sobre uma série de cenas já vistas em diversas outras narrativas do gênero.

Lagoena foi escrita pela Laisa Couto e publicada em 2014 pela Editora Draco. A trama acompanha a jornada de Rheita, uma menina de 10 anos que descobre metade de um mapa mágico em sua casa. Decidida a desvendar os segredos do mapa e crendo que ele irá levá-la para perto do seu pai (desaparecido muito tempo atrás), a menina parte, junto com seu amigo Kiel, numa aventura para a terra mágica de Lagoena.

Laisa nos insere no livro quando Rheita ainda é um bebê e seu avô descobre algo incrível, mas ameaçador na identidade da neta. Para protegê-la, ele resolve esconder um segredo de quase todos do reino onde vivem. Dez anos depois, no entanto, a verdade vem a tona e Rheita encontra a terra distante de Lagoena. Lá passa a enfrentar uma série de desafios para recuperar sete chaves mágicas que abrem um Portal dos Desejos, o qual salvará o local de um mal terrível.

Bastou-lhe um simples momento de descuido, e seu império ruiu, seu poder se esgotou, e sua vida, prolongada por tanto tempo, foi amaldiçoada para sempre… P.16

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Mapa de Lagoena. Foto: Fan page oficial do livro | Reprodução.

A medida que o texto se desenvolve não consegui achar nada realmente marcante na história e é muito óbvio para o leitor todo o desenrolar do livro. O trabalho em cima da construção dos personagens também é muito superficial, mesmo que a narrativa seja voltada para crianças.

Na verdade, acredito que a autora se perdeu um pouco na forma de trabalhar Lagoena. Tudo ficou muito “chapado”, ou seja, sem nuances de atitudes ou ações. Diversos personagens apareciam e sumiam em seguida, sem realmente deixar algo de importante na história. Pareciam ser apenas figurantes inseridos para esticar o livro.

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Ilustração de Rheita. Foto: Site oficial do livro | Reprodução

Ainda sobre os personagens “figurantes”, quase todos eles eram seres mágicos, como fadas, centauros, unicórnios e existia até uma referência brasileira ao curupira. Só que me incomodou a forma clichê que eles eram apresentados. É exatamente o que se lê em uma infinidade de contos e lendas já escritos. Ou seja, é tudo mais do mesmo. Também senti como se a Laisa tivesse pego cenas de outras histórias e simplesmente inserido no texto.

Sobre essa falta de inovação, houve dois momentos claros para mim com a sensação de dèjá vu: Rheita encontrando um grupo de animais apreciando um banquete me lembrou Alice interrompendo o chá do coelho e seus amigos; a cena de Rheita e Kiel entrando num local com um tesouro abandonado protegido por uma serpente de fogo era como se visse um trecho do Hobbit, com Bilbo indo enfrentar o dragão Smaug. Outra passagem de banquete no livro me lembrou uma cena do filme O Labirinto do Fauno.

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Curupira. Figura folclórica serve de inspiração para o personagem Guri, de Lagoena. Foto: escolakids.uol.com.br | Reprodução

Os pontos negativos em Lagoena foram mais evidentes que os positivos, porém algumas passagens da aventura foram interessantes, principalmente o momento em que as crianças encontram um grupo de ladrões e vão ter de fazer um arriscado acordo para completarem a sua missão de busca pelas chaves do Portal.

Outro ponto positivo é que o texto é facilmente compreendido por crianças, sendo uma divertida história de entretenimento, como alguns filmes que passam na sessão da tarde. Agora,  teor literário ainda precisa de muita evolução para tornar-se algo marcante.

Os olhares febris de vingança não cediam à inocência; o crime custara um preço, e as crianças tinham de pagar. P. 76

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Foto: Bárbara Valdez

Quem quiser adquirir o livro pode encontrá-lo no site da Editora Draco. Espero que vocês tenham gostado da resenha de hoje. Super abraço.

Do leste ao oeste, do norte ao sul, cada fração de terra, cada pedra, cada rio, cada monte, cada canto do horizonte, tudo é Lagoena! Terra abençoada pelas Lágrimas de Aura, e amaldiçoada pela Desonra dos Homens-Reis! P.70

  • o exemplar desta resenha foi cedido, em versão e-book, pela autora.
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6 comentários sobre “Lagoena é uma colcha de retalhos

  1. Laísa Couto

    Oi, Bárbara.
    Obrigada pela resenha. Escrever e publicar um livro é muito delicado. Agradamos alguns, desagradamos outros. Obrigada por ressaltar sua opinião. Vem a calhar para a melhoria do que escrevo.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi Laisa. Eu é que quero agradecer por você ter me enviado o livro e por ter entendido minhas críticas. Infelizmente dessa vez a resenha não foi positiva, mas acredito que aperfeiçoamos nossas habilidades a cada dia e espero num próximo contato com teus textos, ter uma opinião diferente.
      Abraço.

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      1. Laísa Couto

        Sim, entendi. Tanto que compartilhei no Facebook. Só gostaria de fazer uma pequena correção no seu texto, a criatura do nosso folclore que mencionou e que está inserida no livro é o curupira, não a caipora, esta é um homenzinho pequeno, e monta num porco-do-mato, dizem que sua visão traz mau agouro. Também existem outras referências a outras criaturas do nosso folclore no livro que talvez não tenha percebido.
        Até a próxima.

        Curtido por 1 pessoa

      2. Oi Laísa. Fico feliz que você tenha compartilhado a resenha. Deveriam haver mais autores abertos a ouvir opiniões diferentes.
        Quanto às referências do folclore, eu realmente não tenho um domínio muito grande da mitologia nacional e, nas pesquisas que fiz, a Caipora e o Curupira sempre apareciam muito interligados, ficando difícil definir um e outro. Obrigada pelo toque de qual era a referência certa, vou consertar no texto.
        Um grande abraço.

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  2. Bárbara, vim aqui ler a resenha depois que a Laísa a compartilhou no Facebook. Sim, ela fez isso. Bem, é um tanto raro para mim ler resenhas negativas, e acho isso algo positivo, pois demonstra, a princípio, imparcialidade de sua parte e, em geral, aprendemos mais com erros, mesmo que dos outros (parece que as lições do que não fazer são melhor assimiladas que as do que fazer). Quando eu terminar meu livro, e autopublicá-lo como e-book, farei questão de enviar para você, que tem vasta leitura e me fará o favor de destruí-lo, rs. Críticos como você são muito necessários.

    Quanto ao livro da Laísa, que ainda não li, será que você não o analisou sob uma ótica fora da faixa a que ele está destinado?

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi Renato.
      Nossa, foi uma boa surpresa ler seu comentário. Eu realmente tento ser imparcial quando avalio uma obra e também não criticar só por criticar. Acho que o livro traz um pouco da alma do autor e, independente do resultado final, é um esforço que não deve ser julgado à revelia. Quanto ao seu livro, ficarei encantada em lê-lo, mas não queira que eu o destrua já, assim, de início. rsrsrs

      Na obra da Laisa, eu analisei mais a forma como ela trabalhou as referências literárias dentro do livro e achei que faltou um refinamento artístico pra criar uma história realmente nova. Se uma criança ler Lagoena, ela provavelmente vai achar divertida a aventura, principalmente pela falta de base de comparação. Mas ser apenas divertido é uma parte pequena da literatura que deve trazer histórias que falem por si mesmas. Um livro infantil que acho lindo é A Extraordinária Jornada de Edward Tulane, inclusive fiz resenha dele aqui no blog.

      Um abraço e ficarei aguardando sua história. 🙂

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