Saga Encantadas -Uma versão sexy e cruel dos contos de fadas

Saga-Encantadas

Para quem sempre achou que existia muita história não contada no “felizes para sempre” entre príncipes e princesas, a Saga Encantadas vem para satisfazer os desejos mais sombrios de leitores ansiosos por um pouco de intriga, sexo (sim, a história é para adultos!) e vida real nos contos mágicos tão narrados ao longo de gerações. 

A Saga foi construída como uma trilogia na qual cada livro aborda em destaque um conto de fadas. Assim, temos  “Veneno” contanto a história da Branca de Neve, “Feitiço” enfocando a Cinderela e, por fim, “Poder”, que teoricamente trabalha com a Bela Adormecida. Os livros foram escritos pela Sarah Pinborough e publicados pela Editora Gente, em 2014.

Saga-Encantadas

Os três contos centrais são interligados e servem de gancho para uma aventura permeada por diversos outros personagens: Chapeuzinho Vermelho, Aladim, Robin Wood, o caçador, a bruxa da casa de doces, o lobisomem, Rumpelstiltskin, Rapunzel e, principalmente, a Bela e a Fera, aparecem no enredo. Pelo estilo narrativo, Encantadas é comparada à série Once Upon a Time, porém esta última é bem mais insossa do que o que aparece nas páginas dos livros. 

Mesmo com a variedade de personagens, a autora não começou as histórias de modo positivo. Quando comecei a ler “Veneno” tinha certeza que ia trazer uma resenha bem negativa para o blog, inclusive na metade da narrativa já estava decidida a não ler o restante dos livros. Por sorte, a Sarah foi melhorando ao longo da aventura e finalizou a trilogia com uma história realmente marcante, cujo enredo é diferente de tudo que já vi até hoje. 

veneno

Minha decepção com “Veneno” foi que não existiu uma releitura dos personagens: Branca de Neve é extremamente boa o tempo todo e a Rainha Má é uma madrasta amargurada que deseja impor medo a todos no reino. Nenhuma novidade no ponto mais central do conto. Para mim, na verdade, o livro é uma história erótica (com várias cenas detalhadas de sexo) sob o pano de fundo dos contos de fadas. Com certeza não era isso que eu esperava e sim uma aventura retrabalhada de modo inovador.  

Quanto às maldades da rainha, parecia que a autora queria justificá-las o livro inteiro, apelando para as frustrações e os problemas pelos quais a personagem já havia passado. Muito desnecessário.

encantadas

As únicas coisas verdadeiramente retrabalhadas em “Veneno” foram dois personagens. Em menor escala tem Aladim, com uma história sórdida e nada heróica, e de modo bem interessante tem o Príncipe Encantado, que não é encantador como nos contos de fadas. A cena final do livro, o momento do felizes para sempre entre Branca de Neve e seu príncipe, é o que salva a narrativa, é inovador e realmente impressionante.

Um desejo é apenas uma maldição disfarçada. P.55, livro Veneno.

feitiço

O segundo capítulo de Encantadas ganha um enredo mais bem trabalhado. “Feitiço” revisita a história da Cinderela apresentando ao leitor personagens completamente diferentes dos que existem no imaginário popular atual. Sarah traz também alguns elementos macabros da narrativa antiga da Gata Borralheira, escrita na versão de Charles Perrault. 

A parte inicial do livro mostra uma Cinderela fútil e convencida, uma garota mimada, apesar de cuidar da maior parte da limpeza da casa. Essa questão no enredo ficou um tanto confusa e acredito que foi mal elaborada pela autora, pois ao mesmo tempo em que a família da Cinderela parecia gostar muito dela, também pareciam não lhe dar muita atenção.  

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O desenvolver do livro ainda tem muitas cenas picantes (nada de crianças para ler essas histórias!), mas não se fia só nisso e existe uma história nova ali, mesmo que não seja marcante. Toda a narrativa é tecida com ação, o que cria um ritmo de leitura muito bom.  É ótimo ver a dinâmica de Cinderela com um das irmãs, com o caçador da Branca de Neve (que volta a aparecer nesse livro) e com a perspectiva real do que é uma vida de princesa.

A Rainha Má do primeiro conto também se faz presente durante todo o enredo de “Feitiço”. A autora parece que gosta de dar reviravoltas no final de suas histórias, pois a última cena do livro também é impactante e remete novamente à Branca de Neve. Enfim, talvez as coisas entre a madrasta e a princesa se resolvam de uma vez por todas.

Talvez se ela ficasse o tempo todo com os sapatos, ele a amasse para sempre e ela fosse feliz para sempre com um marido que a adorasse. P. 191, do livro Feitiço.

poder

O último livro, “Poder”, foi o que me fez efetivamente gostar da Saga Encantadas. Ele tem uma história de fantasia completa e mistura de modo surpreendente os contos da Bela Adormecida com a Bela e a Fera. Por isso, no início da resenha eu disse que o livro abordava teoricamente somente uma aventura, pois na verdade ambas as narrativas do imaginário popular estão interligadas de modo impossível de separar.

Durante o enredo vários personagens aparecem, indo desde Chapeuzinho Vermelho até Rumpelstiltskin, e o mais legal é que a autora consegue interliga-los de modo super bem feito. A princesa e o príncipe são ao mesmo tempo iguais e diferentes do que imaginamos, o Rumpelstiltskin tem um motivo para querer um bebê, a Rapunzel foi parar na torre de um modo diferente da história clássica, etc.

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Capas hardback na versão norte-americana. Fonte: http://www.blog.patrickrothfuss.com | Reprodução.

Nesse último conto, as cenas picantes quase não existem, a única exceção é um momento que lembra as festas de luxúria do filme De Olhos Bem Fechados. Contudo essa parte não está ali só para ser sensual (e até nojenta em alguns momentos), tem uma construção narrativa em torno dela e que combinou muito com a história. 

… havia perigo ali. Quando crescesse mais, quem venceria a batalha? A Bela ou a Fera? Ele não podia tomar conta dela para sempre. P.130, do livro Poder.

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Lindas essa edição norte-americana e vejam o desenho principal em Beauty (Poder, na versão brasileira). Fonte: http://www.blog.patrickrothfuss.com | Reprodução.

A ênfase em “Poder” está no Caçador e todos os demais elementos giram em torno dele. Apesar do livro ser o 3º exemplar da trilogia, ele é a aventura inicial de Encantadas, já que a autora criou uma sequência de certo modo ao inverso.  Assim, pela ordem cronológica padrão, teríamos “Poder” como o livro 1, seguido por “Veneno” e, por fim, o conto de “Feitiço”.

Finalizada a leitura da Saga Encantadas posso dizer que achei a imaginação da Sarah Pinborough incrível para o enredo de “Poder” e também na construção de “Feitiço”, porém a escrita dela deixa muito a desejar. O problema é a qualidade narrativa. A forma como a autora conta as aventuras é superficial, bem como os diálogos. Falta um refinamento literário mesmo, porque a inovação da história não deixou a desejar (com exceção de “Veneno”). Ah, as imagens das capas também são lindas!

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A autora, Sarah Pinborough. Foto: Lou Abercrombie | Reprodução.

Espero que você tenham gostado da resenha e quem quiser adquiri os livros pode ir no site da Editora Gente ou na Submarino

*As fotos sem legendas foram tiradas por mim.

 

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