“Labirinto” é uma narrativa completa

Labirinto

Ambientado na França contemporânea ao mesmo em que retrata o período tenso das Cruzadas do século XVIII, o livro é uma teia bem construída de acontecimentos. Cenas de suspense e ação são contrabalanceadas com romance, traições e uma pitada de sobrenatural. Labirinto não cansa o leitor em nenhum momento, mantendo-se intenso até a última página.

A história foi escrita pela inglesa Kate Mosse e publicada no Brasil pela Suma de Letras, em 2006. O livro é bem extenso, porém suas mais de 500 páginas são necessárias para construir com profundidade a narrativa.

Carcassonne---França
Cidade de Carcassonne – França. Foto: http://www.suddefrancetravelacademy.com | Reprodução

A estrutura de Labirinto alterna acontecimentos ocorridos a partir de 1209 com cenas da atualidade e traz duas personagens principais, Alice e Alaïs. Sob as experiências dessas duas mulheres presenciamos uma guerra religiosa em busca do poder, na qual um segredo precisa ser preservado. Todo o cenário ocorre na região do Languedoc – França, que abrange as cidades de Carcassone, Tolouse, Montréal, entre outras.

[…] havia uma verdade muito mais antiga, mais ancestral, mais absoluta do que qualquer coisa que o mundo moderno pudesse oferecer. Esta é uma história que começa nas terras ancestrais do Egito […]. Esta é a verdadeira história do Graal. P. 92 e 107

Labirinto

O enredo gira em torno de um mistério envolvendo o símbolo de um labirinto, algo que está relacionado com a ideia do Graal, difundida na religião cristã. De início vocês podem pensar que essa é uma história à la Dan Brown em O Código da Vinci, contudo o texto de Kate Mosse tem menos o ritmo de thriller e muito mais uma característica de romance histórico. Não há tanto uma tensão em descobrir o que vai acontecer em seguida, pois o que cativa o leitor é a jornada como um todo.

Ao longo da história somos apresentados a diversos personagens. No período medieval temos Alaïs, o intendente Pelletier, o chevalier Du Mas e o pequeno Sahjë. Na época atual o destaque fica com Alice, Baillard, Marie Cecile e Authié. A conexão entre passado e presente ocorre durante uma escavação arqueológica na qual Alice descobre um anel e dois esqueletos. A partir daí ela começa a fazer parte de uma perseguição que não entende, ao mesmo tempo em que percebe estar ligada a acontecimentos de 800 anos atrás.

Cruzados
O Cruzados da Idade Média. Foto: Livro História Geral | Reprodução

E aquilo não era uma sonho, mas uma lembrança. O fragmento de uma vida vivida muito, muito tempo atrás. P. 152

Labirinto trabalha muito bem cenas de traição, de amor fraterno e reconstrói de maneira vívida um período da sociedade medieval. Enquanto leitor conseguimos sentir a tensão daquela época, cheia de confrontos por tantos anos. Acredito que a autora conseguiu trazer uma história rica e nesse aspecto os momentos do passado eram mais substanciais do que as cenas contemporâneas, que enfatizavam mais a ação.

O conteúdo sobre religião é abordado com profundidade e trata dos cátaros – uma corrente cristã, mas com diferenças substanciais do catolicismo – que realmente foi muito perseguida durante as Cruzadas. Outro ponto interessante é em relação ao próprio símbolo do labirinto, que existe de verdade em catedrais por toda a Europa. Uma cena do livro mostra Alice na Catedral de Chartres – França, acompanhando um grupo de turistas que circulam um labirinto inscrito no chão. A foto abaixo mostra isso na vida real.

Labirinto-em-Chartres
Labirinto na Catedral de Chartres. Local é listado como patrimônio mundial pela UNESCO. Foto: Sylvain Sonnet – Corbis | Reprodução.

As histórias mudam de forma, mudam de caráter, adquirem cores diferentes dependendo das palavras que se usa, da língua em que se decide contá-las. P. 449

As únicas ressalvas que tenho quanto ao exemplar são editoriais. A Suma de Letras às vezes deixa a desejar nesse aspecto. A história faz muito uso de expressões francesas, alguns diálogos inteiros são em francês. É interessante a editora ter mantido a versão original da língua, mas quase imperdoável não ter colocado notas de rodapé indicando a tradução. Muitas vezes eu tinha de procurar um dicionário ou tentar entender o contexto do que estava sendo dito. E pior é que tinham frases traduzidas em alguns momentos, mas deixadas no vácuo em outros casos.

Labirinto

Ainda no aspecto editorial, senti falta de um texto suplementar (posfácio ou prefácio)  falando sobre os cátaros, já que era algo tão marcante na narrativa. Por fim, as margens do texto poderiam ser um pouco maiores, já que elas são quase inexistentes e isso incomoda na hora de ler.

De 2016, Labirinto é até agora o melhor livro que li, ele tem personagens motivados e bem construídos e a história, mesmo com uma grande quantidade de detalhes, não se perde no enredo. A obra inclusive foi adaptada para uma minissérie de dois capítulos, em 2012. A responsável pela produção foi a empresa britânica Scott Free Productions e no elenco estão John Hurt, Jessica Brown Findlay e Vanessa Kirby. Nem preciso dizer que estou louca pra ver essa adaptação. Quem quiser comprar o livro pode ir no site da Livraria Saraiva ou Livraria Cultura.

Acompanhe o trailer da minissérie:

No centro do labirinto está a iluminação, no centro está a compreensão. P. 54

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s